Eram os
Deuses Sertanejos?
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Conheça Antônio Montalvão,
o homem que ergueu uma cidade no mais remoto
sertão mineiro para recuperar as glórias
perdidas da civilização de Atlântida
Por: Xavier Bartaburu, de Montalvânia
Fotos: Francilins
Publicado: Edição 153. Revista
Terra
Fica bem no centro do cemitério. Túmulo
de mármore negro, em forma de pirâmide.
Vistoso, exuberante. Parece que todas as cruzinhas
de madeira que o rodeiam estavam ali para adorá-lo.
As cruzes, fincadas no chão seco do cerrado,
têm os nomes escritos a mão. Mas
este jazigo, não. Esse tem placa com
letras douradas: "A alma é a força
que causa a coesão e a dissolução
do corpo e nada tem a ver com a morte. Liberta,
alcança a bem-aventurança".
A frase é de Antônio Lopo Montalvão,
e esse é seu túmulo. Montalvânia,
sua cidade.
Montalvânia nasceu em 22 de abril de 1952,
às margens do Rio Cochá, afluente
do Carinhanha, na Bacia do São Francisco.
Peãozada na caçamba, machado e
foice na mão: em poucos dias, a mata
virgem da Fazenda Barra dos Poções
era posta abaixo. Era o sonho de Montalvão
se realizando: "Eu sempre tive na idéia
a semente de uma cidade, como a Cidade dos Templos
de Monte Albán, no México antigo,
onde o deus Quetzalcoatl foi iludido pelo demônio
Huitzilopochtl; mas realmente eu pensava na
Nova Tróia invencível, fadada
aos descendentes de Enéias".
De sangue troiano ninguém precisava para
vir morar em Montalvânia.
Bastava a vontade de cravar raiz
no extremo norte de Minas Gerais, sertão
brabo, quase Bahia. Montalvão dava tudo:
lote, casa, comida, roupa, até moças
casadouras ele foi buscar nas fazendas da região
para segurar a peãozada. Montalvânia
nasceu bonita, arrumada. Cidade planejada, cada
rua batizada com um grande nome da História:
Rua Schopenhauer, Avenida Galileu, Praça
Platão, Avenida Buda, Rua Zoroastro,
Rua Plutarco, "companheiros de tertúlias".
Montalvão achava que o
povo do sertão ia querer saber quem eram
aquelas pessoas todas, ia se educar. Marli de
Lima, moradora da Avenida Confúcio, eixo
principal da cidade, sabe na ponta da língua
o porquê daquele nome: "É
que Montalvão ficou confúcio pra
que lado saía as pista (sic)". Faz
sentido: a Avenida Confúcio é
a única que não muda de nome ao
atravessar a Praça Cristo Rei, marco
zero da cidade.
Antônio Montalvão tinha tudo planejado.
A Montalvânia ele reservava destino maior,
tão certo estava de que este ponto remoto
do Brasil carregava a memória da civilização
perdida de Atlântida: "O maior tesouro
de Montalvânia é o tesouro histórico
nas inscrições rupestres que se
tornam como um álbum biológico
e espacial, evidenciando que somos nós
os humanos meras larvas agigantadas de estrelas-do-mar,
precedidos por gigantes descomunais, por ciclopes
e sereias, enquanto essa linhagem humana fora
também precedida por seres antropomorfos
exóticos, a evidenciar que o antropomorfismo
não é privilégio humano
nem o humanismo é privilégio terráqueo".Quem
conheceu Montalvão garante que de louco
não tinha nada. Ou não parecia
ter.
Homem de fala articulada, opiniões firmes
e cultura vasta, sua figura impunha respeito
e medo. "Ele fitava o olho da pessoa e
conseguia o que queria", lembra Leonardo
Marinho, de 86 anos, amigo do tempo de escola.
Em 21 de abril de 1955, Montalvão virou
lenda. Foi durante os preparativos para a festa
de três anos da cidade. Chegou um sargento
acompanhado de oito soldados, quis impedir a
festa. Montalvão não só
conseguiu atirar no sargento como também
escapou dos soldados e desapareceu da vista
de todos. "Minha avó dizia que ele
virou toco de pau", conta Josenildo Santos,
morador da cidade. Outras versões falam
dele virando onça, saco de feijão,
ficando invisível.

As histórias de um homem tomado por poder
sobrenatural desceram as barrancas do Cochá
e vieram rápido parar nas águas
do São Francisco, ganhar o sertão.
Antônio Montalvão nasceu em 1917
em Nhandutiba, zona rural de Manga. Mas só
começou a entrar na História em
1949, quando voltou de um exílio forçado.
Aos 22 anos, metera-se numa briga em Goiânia
e matara o capataz de um chefe político
local. Fugido, foi parar em Buenos Aires. Depois
de dez anos, estava de volta. Voltou sabido,
cheio de requintes, diferente do homem que não
havia passado da terceira série primária.
E voltou com um projeto: fundar Montalvânia
e torná-la um centro de desenvolvimento
no coração do país. Erguer
a cidade foi fácil. Difícil era
emancipá-la do município de Manga
e do poder dos coronéis João Pereira
e Dominiciniano Pastor Filho.
Montalvão não era muito chegado
em política, mas inventou de virar prefeito
de Manga para o bem do projeto. Assumiu em 1959,
quebrando longa tradição coronelesca
e ganhando o ódio dos inimigos. Então,
num dos lances mais insólitos de sua
vida, Montalvão pôs a prefeitura
de Manga embaixo do braço e a carregou
para Montalvânia.
Numa noite chuvosa de 1960, o agente fiscal
do município, a mando de Montalvão,
punha numa mala todos os livros necessários
ao pleno funcionamento da prefeitura. Ninguém
soube de nada até o dia seguinte, quando
a prefeitura de Manga amanheceu a 64 quilômetros
dali, no centro de Montalvânia. Embora
tecnicamente fosse um povoado do distrito de
Poções, Montalvânia naquele
momento era mais cidade que Manga. Tinha água
encanada, rede telefônica, posto de saúde,
correio, campo de aviação. Dois
anos depois, virava município.
Vencida essa parte do plano, Montalvão
saiu da política para dedicar-se ao progresso
da cidade e ao Instituto Filantropo Cochanino,
centro de estudos esotéricos que ficava
no topo do Monte Lopino, às margens do
Rio Cochá. Meteu na cabeça que
devia criar um eixo de desenvolvimento entre
Brasília e Montalvânia. Em 1966,
partiu de foice na mão, 40 homens atrás,
abrindo picada. Traçou 543 quilômetros
de estrada, pôs uma camionete Willys verde
para rodar, sentou-se ao volante e inaugurou
uma linha direta com a capital: "Montalvânia-Brasília:
um pulo de sapo". Fez isso por dois anos.
Montalvão voltou a ser prefeito só
em 1973. Candidato único. Quase perdeu
para os votos em branco. "Ele tinha opiniões
muito radicais. Tudo deveria ser do jeito que
ele queria", diz o atual prefeito, José
Florisval de Ornelas. Dinheiro não havia,
mas o progresso tinha de vir. Durante seu mandato,
Montalvão vendeu duas fazendas para asfaltar
Montalvânia. Orgulhoso, soltou um belo
boi branco para circular sobre o asfalto: era
o deus Ápis. E ai de quem fizesse dele
um bife.
"Quando meu pai virou prefeito, dispôs
de recursos próprios para melhorar Montalvânia",
diz Cássio Montalvão, um de seus
sete filhos. "Depois que ele saiu, a gente
não tinha mais nada. Passamos necessidade,
fomos morar em barracão." Seu mandato
foi cravado de críticas, e com razão:
a política já não interessava
a Montalvão. Muito mais inspiradoras
eram as pinturas rupestres ao redor da cidade,
o que ele chamava de "Bíblia de
Pedra".
Montalvão não estava só.
Tinha sempre João Vieira a seu lado.
"Percorri essa serra toda atrás
das pinturas. Enfrentei muita onça pra
achar essas grutas", conta João
Geólogo, como é chamado. Acordo
simples: João ia atrás das inscrições
rupestres e o outro lhe pagava a descoberta.
Nisso, o escudeiro fiel encontrou mais de cem
sítios arqueológicos. "Quando
era garoto, eu achava que as pinturas eram coisa
dos índios, mas o Montalvão dizia
que era de uma civilização muito
antiga, que andava de avião e disco voador.
Quando veio o Dilúvio, eles foram para
Marte. Depois o mundo tornou a criar nova vida,
que somos nós."
Com a ajuda de jovens médiuns, Montalvão
identificava, ele mesmo, cada pintura e batizava
cada sítio: Lapa da Hidra, Labirinto
de Zeus, Lapa de Possêidon, Abrigo dos
Diplodocus. Os peixes eram submarinos. Os triângulos,
naves interplanetárias. As figuras antropomorfas,
divindades africanas, gregas, hindus, andinas,
javanesas ou tudo isso ao mesmo tempo. Na Lapa
de Gigante viu a imagem de um homem e achou
que lá devia estar enterrado o corpo
de um gigante. Mandou João Geólogo
escavar 12 metros e, pois, eis que surge a ossada
de uma preguiça-gigante. Ponto para Montalvão,
que exibe orgulhoso na cidade a prova física
de sua bizarra teoria.
O caldo que mistura mitologia, botânica,
astronomia, bioquímica e uma farta dose
de ficção científica está
todo documentado. Sob os auspícios do
Instituto Filantropo Cochanino, Montalvão
lançou na década de 70 cinco edições
da Revista do Brasil Remoto, com suas próprias
interpretações das pinturas (veja
algumas no quadro) e mais dois livros: Cordeiro
Vestido de Lobo Antificção das
Ficções Sonambúlicas e
Analogias do Naturalismo Universal, nos quais
contesta, de uma só vez, Lavoisier, Newton
e Einstein. Tinha planos de lançar mais
12.
Montalvão sustentava a firme convicção
de que Montalvânia fora erguida no centro
do universo, no "Omphalo Delos, o nó
umbilical por sobre o ventre tartárico".
Ou seja: a divisão dos hemisférios
não estaria no Equador, e sim numa linha
curva que surpresa passa sobre o norte de Minas.
Todos os mitos, todas as lendas teriam nascido
em Montalvânia, à beira do Cochá
"Mama Cocha, o Lago Matriz onde surgiu
a humanidade" e se espalhado pelo mundo
depois que os atlantes foram para Marte: "A
fase do penúltimo dilúvio ocorrido
há 33 mil anos correspondeu à
ruptura do saco amniótico da raça
humana, quando os marcianos de Adonai (...)
transportaram primitivos tupis (...) para a
Groenlândia.
E assim como tudo começou aqui, tudo
começará de novo," vaticina
Montalvão. "O fado de Montalvânia,
como berço da humanidade fermentável
e como sua própria campa, será
o novo berço da humanidade destilada,
com seu campanário na voz dessas pedras
falantes."
Enquanto a humanidade destilada não aparece,
Montalvânia continua sendo um dos municípios
mais pobres de Minas Gerais. Seus 17 mil habitantes
vivem da pecuária e esperam há
anos por uma rodovia asfaltada que os leve ao
menos até Manga. "Não herdamos
nada dele", resume Cássio Montalvão.
"Só o orgulho de ter sido filho
dele, de carregar o sobrenome."
Antônio Montalvão morreu em 1992,
aos 75 anos, de ataque do coração.
Morreu só, deitado na rede, na sede do
Instituto Filantropo Cochanino, cercado de gatos
que julgava serem encarnações
de divindades hindus.