Montalvânia
nasceu em 22 de abril de 1952, às
margens do Rio Cochá, afluente
do Carinhanha, na Bacia do São
Francisco. Peãozada na caçamba,
machado e foice na mão, em poucos
dias, a mata virgem da Fazenda Barra do
Poções era posta abaixo.
Era o sonho de Antônio Montalvão
se realizando.

-
Eu sempre tive na idéia a semente
de uma cidade, como a Cidade dos Templos
de Monte Albán, no México
antigo, onde o deus Quetzalcoatl foi iludido
pelo demônio Huitzilopochtl; mas
realmente eu pensava na Nova Tróia
invencível, fadada aos descendentes
de Enéias, dizia Montalvão.
De
sangue troiano ninguém precisava
para vir morar em Montalvânia. Bastava
a vontade de cravar raiz no extremo Norte
de Minas Gerais, sertão brabo,
quase Bahia. Montalvão dava tudo:
lote, casa, comida, roupa, até
moças casadouras ele foi buscar
nas fazendas da região para segurar
a peãozada. Montalvânia nasceu
bonita, arrumada. Cidade planejada, cada
rua batizada com um grande nome da História:
Rua Schopenhauer, Galileu, Praça
Platão, Avenida Confúcio,
Buda, Rua Zoroastro, Rua Plutarco, "companheiros
de tertúlias". Montalvão
achava que o povo do sertão ia
querer saber quem eram aquelas pessoas
todas, ia se educar.
Antônio
Montalvão tinha tudo planejado.
A Montalvânia ele reservava destino
maior, tão certo estava de que
este ponto remoto do Brasil carregava
a memória da civilização
perdida de Atlântida.
-
O maior tesouro de Montalvânia é
o tesouro histórico nas inscrições
rupestres que se tornam como um álbum
biológico e espacial, evidenciando
que somos nós os humanos meras
larvas agigantadas de estrelas-do-mar,
precedidos por gigantes descomunais, por
ciclopes e sereias, enquanto essa linhagem
humana fora também precedida por
seres antropomorfos exóticos, a
evidenciar que o antropomorfismo não
é privilégio humano nem
o humanismo é privilégio
terráqueo, costumava dizer.
Montalvânia
traz em sua história, os mistérios
e curiosidades que marcaram a vida do
autodidata que a fundou, Antônio
Lopo Montavão. A cidade é
banhada pelas águas cristalinas
do Rio Cochá. A paisagem é
belíssima e existem grandiosas
formações rochosas. O município
tem cerca de 16 mil habitantes.
Montalvão
enfrentou os coronéis da época
para construir a cidade. Chegou trazendo
ideias novas, de democracia, justiça
e e disseminação do conhecimento.
Algo impensável na época.
Fez uma casa no alto do Monte Lopino para
apreciar o nascimento do lugar. Mais tarde,
a casa abrigou um instituto de filantropia
e uma escola.
Segundo
Cássio Montalvão, filho
do fundador, o pai reunia algumas pedras
retiradas de escavações
e dizia que encontrava nelas a história
da criação do universo.
Montalvão acreditava que viveria
mais de 100 anos, mas morreu pouco depois
dos 70, de infarto, enquanto dormia.
De
acordo com os amigos, Montalvão
tinha o corpo fechado. O aposentado Waldemar
dos Santos disse que ele se transformava
para despistar os inimigos, que eram os
coronéis que o perseguiam.
-
Ele pressentia quando lhe queriam fazer
o mal. Quando as pessoas chegavam ao local,
encontravam apenas um toco. Acontecia
de pisarem no toco e na verdade estavam
pisando na cabeça dele.
disse o aposentado.
O
empresário Agostinho Lacerda lembra
que, em noites de lua, Montalvão
recebia mensagens do além. Vozes
avisavam onde o fundador de Montalvânia
deveria arrancar uma laje de pedra para
encontrar o livro da criação
do universo. Agostinho diz ter acompanhado
a expedição até o
misterioso local.
-
O portal está lá. Nunca
foi aberto até hoje. Onde foi feita
a escavação, caiu uma pedra
de cerca de 50 toneladas e tampou a boca
de entrada, disse o empresário.
A cidade foi planejada com uma praça
central onde convergem ruas e avenidas.
Todas são largas e batizadas com
nomes de pensadores, profetas e cientistas.
Para conseguir a emancipação,
o fundador teve que ser prefeito de Manga,
município vizinho, em 1959. O objetivo
era trazer benefícios e desenvolvimento
para Montalvânia. Mas a estratégia
não deu certo. Os coronéis
resistiram.
Então,
numa ação ousada, ele contou
com a ajuda de amigos, retirou todos os
documentos da prefeitura e instalou em
Montalvânia a sede administrativa
do município.
Estava
criado, oficialmente, o município
de Montalvânia.
Conheça Antônio
Montalvão, o fundador de Montalvânia
Antônio
Lopo Montalvão
1917- 1992
Quem conheceu Montalvão garante
que de louco ele não tinha nada.
Ou não parecia ter. Homem de fala
articulada, opiniões firmes e cultura
vasta, sua figura impunha respeito e medo.
-
Ele fitava o olho da pessoa e conseguia
o que queria, lembra Leonardo Marinho,
amigo do tempo de escola. Em 21 de abril
de 1955, Montalvão virou lenda.
Foi durante os preparativos para a festa
de três anos da cidade. Chegou um
sargento acompanhado de oito soldados,
quis impedir a festa.
Montalvão
não só conseguiu atirar
no sargento como também escapou
dos soldados e desapareceu da vista de
todos.
-
Minha avó dizia que ele virou toco
de pau, conta Josenildo Santos, morador
da cidade. Outras versões falam
dele virando onça, saco de feijão,
ficando invisível. As histórias
de um homem tomado por poder sobrenatural
desceram as barrancas do Cochá
e vieram rápido parar nas águas
do São Francisco, ganhar o sertão.
Antônio
Montalvão nasceu em 1917 em Nhandutiba,
zona rural de Manga. Mas só começou
a entrar na História em 1949, quando
voltou de um exílio forçado.
Aos 22 anos, metera-se numa briga em Goiânia
e matara o capataz de um chefe político
local. Fugido, foi parar em Buenos Aires.
Depois de dez anos, estava de volta. Voltou
sabido, cheio de requintes, diferente
do homem que não havia passado
da terceira série primária.
E
voltou com um projeto: fundar Montalvânia
e torná-la um centro de desenvolvimento
no coração do país.
Erguer a cidade foi fácil. Difícil
era emancipá-la do município
de Manga e do poder dos coronéis
João Pereira e Domiciano Pastor
Filho, o Bembem.
Montalvão
não era muito chegado em política,
mas inventou de virar prefeito de Manga
para o bem do projeto. Assumiu em 1959,
quebrando longa tradição
coronelesca e ganhando o ódio dos
inimigos. Então, num dos lances
mais insólitos de sua vida, Montalvão
pôs a prefeitura de Manga embaixo
do braço e a carregou para Montalvânia.
Numa
noite chuvosa de 1960, o agente fiscal
do município, a mando de Montalvão,
punha numa mala todos os livros necessários
ao pleno funcionamento da prefeitura.
Ninguém soube de nada até
o dia seguinte, quando a prefeitura de
Manga amanheceu a 64 quilômetros
dali, no centro de Montalvânia.
Embora tecnicamente fosse um povoado do
distrito de Poções, Montalvânia
naquele momento era mais cidade que Manga.
Tinha água encanada, rede telefônica,
posto de saúde, correio, campo
de aviação. Dois anos depois,
virava município.
Vencida
essa parte do plano, Montalvão
saiu da política para dedicar-se
ao progresso da cidade e ao Instituto
Filantropo Cochanino, centro de estudos
esotéricos que ficava no topo do
Monte Lopino, às margens do Rio
Cochá. Meteu na cabeça que
devia criar um eixo de desenvolvimento
entre Brasília e Montalvânia.
Em 1966, partiu de foice na mão,
40 homens atrás, abrindo picada.
Traçou 543 quilômetros de
estrada, pôs uma camionete Willys
verde para rodar, sentou-se ao volante
e inaugurou uma linha direta com a capital:
"Montalvânia-Brasília:
um pulo de sapo". Fez isso por dois
anos.
Montalvão
voltou a ser prefeito só em 1973.
Candidato único. Quase perdeu para
os votos em branco.
-
Ele tinha opiniões muito radicais.
Tudo deveria ser do jeito que ele queria,
diz o atual prefeito, José Florisval
de Ornelas. Dinheiro não havia,
mas o progresso tinha de vir. Durante
seu mandato, Montalvão vendeu duas
fazendas para asfaltar Montalvânia.
Orgulhoso, soltou um belo boi branco para
circular sobre o asfalto: era o deus Ápis.
E ai de quem fizesse dele um bife.
-
Quando meu pai virou prefeito, dispôs
de recursos próprios para melhorar
Montalvânia. Depois que ele saiu,
a gente não tinha mais nada. Passamos
necessidade, fomos morar em barracão.
Seu mandato foi cravado de críticas,
e com razão: a política
já não o interessava mais.
Muito mais inspiradoras eram as pinturas
rupestres ao redor da cidade, o que ele
chamava de "Bíblia de Pedra"
diz Cássio Montalvão, um
de seus sete filhos.
Montalvão
não estava só. Tinha sempre
João Vieira a seu lado, o João
geólogo. Acordo simples: João
ia atrás das inscrições
rupestres e o outro lhe pagava a descoberta.
Nisso, o escudeiro fiel encontrou mais
de cem sítios arqueológicos.
-
Percorri essa serra toda atrás
das pinturas. Enfrentei muita onça
pra achar essas grutas. Quando era garoto,
eu achava que as pinturas eram coisa dos
índios, mas Montalvão dizia
que era de uma civilização
muito antiga, que andava de avião
e disco voador. Quando veio o Dilúvio,
eles foram para Marte. Depois o mundo
tornou a criar nova vida, que somos nós.
Com a ajuda de jovens médiuns,
Montalvão identificava ele mesmo
cada pintura e batizava cada sítio:
Lapa da Hidra, Labirinto de Zeus, Lapa
de Possêidon, Abrigo dos Diplodocus.
Os peixes eram submarinos. Os triângulos,
naves interplanetárias.
As
figuras antropomorfas, divindades africanas,
gregas, hindus, andinas, javanesas ou
tudo isso ao mesmo tempo. Na Lapa de Gigante
viu a imagem de um homem e achou que lá
devia estar enterrado o corpo de um gigante.
Mandou que eu escavasse 12 metros e, pois,
eis que surge a ossada de uma preguiça-gigante,
conta João Geólogo, como
é chamado.
Ponto
para Montalvão, que exibe orgulhoso
na cidade a prova física de sua
bizarra teoria. O caldo que mistura mitologia,
botânica, astronomia, bioquímica
e uma farta dose de ficção
científica está todo documentado.
Sob os auspícios do Instituto Filantropo
Cochanino, Montalvão lançou
na década de 70 cinco edições
da Revista do Brasil Remoto, com suas
próprias interpretações
das pinturas (veja algumas no quadro)
e mais dois livros: Cordeiro Vestido de
Lobo - Antificção das Ficções
Sonambúlicas e Analogias do Naturalismo
Universal, nos quais contesta, de uma
só vez, Lavoisier, Newton e Einstein.
Tinha
planos de lançar mais 12. Montalvão
sustentava a firme convicção
de que Montalvânia fora erguida
no centro do universo, no "Omphalo
Delos, o nó umbilical por sobre
o ventre tartárico". Ou seja:
a divisão dos hemisférios
não estaria no Equador, e sim numa
linha curva que, - surpresa, - passa sobre
o norte de Minas.
Todos
os mitos, todas as lendas teriam nascido
em Montalvânia, à beira do
Cochá - "Mama Cocha, o Lago
Matriz onde surgiu a humanidade"
- e se espalhado pelo mundo depois que
os atlantes foram para Marte: "A
fase do penúltimo dilúvio
ocorrido há 33 mil anos correspondeu
à ruptura do saco amniótico
da raça humana, quando os marcianos
de Adonai (...) transportaram primitivos
tupis (...) para a Groenlândia.
E assim como tudo começou aqui,
tudo começará de novo,"
vaticina Montalvão. "O fado
de Montalvânia, como berço
da humanidade fermentável e como
sua própria campa, será
o novo berço da humanidade destilada,
com seu campanário na voz dessas
pedras falantes.”
Antônio
Montalvão morreu em 1992, aos 75
anos, de ataque do coração.
Morreu só, deitado na rede, na
sede do Instituto Filantropo Cochanino,
cercado de gatos que julgava serem encarnações
de divindades hindus.
-
Enquanto a humanidade destilada não
aparece, Montalvânia continua sendo
um dos municípios mais pobres de
Minas Gerais.
Seus 17 mil habitantes vivem da pecuária
e esperam há anos por uma rodovia
asfaltada que os leve ao menos até
Manga. Não herdamos nada dele.
Só o orgulho de ter sido filho,
de carregar o sobrenome, resume Cássio
Montalvão.
Mistérios da humanidade
“Montalvânia nasceu
de uma necessidade, como a semente que
necessita de nascer. Eu sempre tive na
idéia a semente de uma cidade,
como a Cidade dos Templos de Monte Albán,
na província de Monte Rei, no México
antigo, onde o deus Quetzalcoatl foi iludido
pelo demônio Huitzilopochtl; mas
realmente eu pensava na Nova Tróia
invencível, fadada aos descendentes
de Enéias. Retornando de Buenos
Aires para Oiracueba, o nome oficial da
vila de São Sebastião de
de Poções, no município
de Manga, foi como se houvesse descido
da fronte de um árvore viçosa
para as suas raízes fincadas entre
estercos imundos.
Estercos capazes de se tornar em adubo.
Busquei melhorar Piracueba, encontrando
ali a reação de um povo
servil que refletia o carrancismo coronelesco
de Manga, a qual incultava a idéia
de ser eu um impostor, incapaz de qualquer
criatividade. Obstado ali em tudo, inclusive
pela topografia e pelo nome dissonante
de Piracueba, decidi entrar pelas brenhas
e, dentro da virgindade da natureza, em
local propício, deixar nascer a
semente da minha cidade ideal, onde o
lar, seria o templo e a família
seria o dever.
Assim é que, nas margens do rio
Cocha, um afluente do Carinhanha, surgiu
um faixa com a inscrição
desafiante: cidade de Montalvânia.
Isso a 22 de abril de 1952.
Montalvânia
nasceu e cresceu entre as adversidades
do meio ambiente, como aquelas crianças
pré-destinadas e ameaçadas
por quem temem o seu destino mas, sobreviveu
a todas as tentativas de extermínio,
passando diretamente de povoado a cidade
em 1962, tendo sido antes sede eventual
da administração municipal
de Manga, onde não havia ambiência
administrativa.
A
iniciativa privada construiu uma rodovia
de terra ligando Montalvânia a Brasília,
a qual se transformou na rota da BR-030,
que se estente até a Bahia de Maraú,
no Atlântico. A lei federal nº
5.603, de 1969, de autoria do então
deputado Vasco Filho, denominou-a de via
Dom Bosco, em homenagem ao sonho daquele
santo em 1883: na 4ª geração
haveria de surgir uma larga estrada ligando
um lago interior ao oceano e passando
por uma terra prometida onde corriam rios
de leite e mel e jaziam grandes tesouros
encobertos.
Existe
vários minérios na região,
com emanações de metano
e do leite (base do petróleo) em
qualquer perfuração do solo.
Mas, o maior tesouro de Montalvânia
é o tesouro histórico nas
inscrições rupestres que
se tornaram como um álbum biológico
espacial, evidenciando que somos nós
os anões humanos meras larvas agigantadas
de estrela-do-mar, precedidas por gigantes
descomunais, por ciclopes e sereias,enquanto
essa linhagem humana fora também
precedida por seres antropomorfos exóticos,
a evidenciar que o antropomorfismo não
é privilégio humano nem
humanismo é privilégio terráqueo.
Evidencia
também essa Bíblia de Pedra
que seremos sucedidos por uma raça
de cabeça sem corpo, de mentalidade
sem músculos ou de nexo sem sexo,
comunicando-se por telestesia e a constituir
a inteligência universal; sua nutrição,
como a dos deuses, seria de produtos já
assinados, como o leite e o mel, ou, como
acontece com a cabeça e acontecia
com Cronos, a alimentar-se diretamente
de sangue sem impureza.
Evidencia-se
o relevo da região de Montalvânia,
que tivemos uma longa estiagem marítima
num nível de 650m de altitude,
quando o maciço brasileiro, o maciço
guiano e os Andes eram ilhas isoladas
com as denominações de Terra
do sol, de Ra ou de Anti (Atlântida);
Terra da Lua ou de Mu (Amazônia);
Irmisul ou Grande Coluna (Andes).Essa
era a Trôade dedicada a Posêidon,
Zeus e Hades, onde se desenrolou a Guerra
de tróia dos gregos ou a Hamayana
dos indus. Gregos e troianos é
a mesma coisa que Iezeus (filho de Zeus)
e Ionas (filho de Oann, Posêidon),
como Jesus X Jonas, enquanto o vocábulo
quíncha Kari significa Messias,
Cristo e, conseqüentemente Carinhanha
significa mar de Cristo. Cochá,vem
de Mama Cocha, o Lago Matriz onde surgiu
a humanidade, com indícios de que
o Vale do São Francisco fora um
grande lago, talvez o Tritônisdes,
enquanto o pantanal de Mato Grosso seria
o Mar de Tétis dos gregos.
A
inscrições rupestres de
Montalvânia podem trazer a lume
os mistérios da humanidade e da
biologia em geral, capazes de exigir um
reformulação científica
com o corolário social, numa guinada
capaz de descortinar a Tróia invencível,
da invencibilidade do pensamento humano
sem fronteiras entre sociedades, entre
nações, entre continentes,
entre planetas, entre sistemas solares.
E isso deve surgir de um instante para
outro, como a pucrícia que transforma
a menina irrefletida em mulher consciente
ou, o humano animalizado em animal humanizado.
Até lá.”
-
Antônio Lopo Montalvão
|